
Quando um palhaço entra em uma ALA, por mais experiente que possa ser, é impossível saber como será aquela visita, porque as crianças são imprevisíveis.
Quando Muriel (está palhaça que vos narra) junto com a Pipoca e seu irmão Mucunzá, entramos no 2° andar do Hospital Infantil Albert Sabin, não podíamos imaginar tão grande seria aquela pequena tarde. Entramos devagarinho, meio escondido dos olhos curiosos dos pequeninos, que esperto como são, correram para as portas e afirmavam "estou te vendo, estou te vendo". A cada expressão de susto por ser surpreendido pelas vozes e a cada atrapalhada para nos escondermos, eles se divertiam ainda mais.
Paramos na porta do 1° quarto e pedimos para nos escondermos ali. Três das quatro crianças naquele leito permitiram nossa entrada, porém a menina M. nos barrou. Mas um nariz vermelho (amarelo e laranja também) jamais desiste de um largo sorriso e uma bela brincadeira. Tentamos então negociar uma entrada, sem sucesso, argumentamos que estávamos sendo perseguidos por ninjas pigmeus secretos dos quartos vizinhos e precisávamos daquele esconderijo, nos propusemos a sair rapidinho e ainda nada, apelamos até tentar encantá-la com o poder da espada rosa mágica do Mundo-Encantado-Oceânico-do-Pinto-Molhado, mas nada funcionou. Quando pensamos que teríamos que nos conformar e atuar ali mesmo, M. nos liberou entrar. Cada um teve a oportunidade de se apresentar com a ajuda do apresentador "Quem me dá dinheiro", vulgo Mucunzá. Mas a família do milho organizou um complô com uma das paciente e sua ajudante para esconder minha espada do poder. Com isso, criou-se uma saga a procura desse meu relicário que envolveu todos dos quarto, inclusive M. que foi uma gracinha, junto com os meninos A. e F. Mesmo sabendo que estava com eles não conseguíamos recuperar porque Pipoca e Mucunzá escondiam por dentro da roupa, nas costas, lençol (e acredito que até dentro do chapéu, junto com os piolhos de estimação do Mucunzá) :S... E foi durante essa peripécia palhaceana que nosso amiguinho A. nos abordou, e com uma voz tão suave quanto um cantar de ninar, soltou: " eu não sabia, mas hoje eu entendi como se mente dizendo a verdade". Nesse momento, eu, Pipoca e Mucunzá que estávamos de mão dadas, de frente um para o outro, nos entreolhamos cientes da importância daquela frase e ao mesmo tempo sem entender. Ah, o olhar das crianças! Captam mais do que podemos ver, mais do que podemos explicar, e muito além do que pensamos saber ensinar.
Essa frase ainda me surge espontaneamente na cabeça e eu penso que eu aprendo mais com eles do que o contrário. E que a arte do palhaço é bela por ser reveladora nos sorrisos, que de forma simples e sincera torna tudo uma coisa só!
ass. Muriel doce adocicado com mel

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