Entre o passa-passa apressado de corpos e olhos atentos aos descontos enganosos do comércio, o Centro parece um atolado de prédios esfarrapados, com suas ruas cheias de camelôs ambulantes e suas mercadorias expostas à cada ângulo urbano disputando travessias com grupos de adolescentes estudantes à procura de passa tempo como enamorar os produtos congelados da vitrínes. Os esbarros e resmungos também fazem parte do ritual sagrado do lugar coberto por um calor incômodo, que esconde um Centro interrompido...
Um Centro de artistas mambembes instalados na na Praça José de Alencar, dando vida com suas acrobacias, malabares, mágicas, piadas e truques inventados para prender a atenção dos passantes. Um Centro de encontro para o resgate do passado em meio as conturbações paradoxas das ruas, contempladas pelo aposentados da Praça do Ferreira. Um Centro de lendas e mitos soltos como névoas que são capazes de envolver sutilmente e embaraçar o olhar de real, permitindo apenas vislumbrá-lo com o poder invisível da imaginação. Um Centro de formação estudantil e pessoal que incentivou e motivou tantos jovens, que tornaram-se figuras importantes para o desenvolvimento político-sócio-cultural do nosso estado, que hoje quase pode se rever encarnado na fachada, letreiro, salas, colunas, pátio e corredores do Liceu do Ceará, visto apenas de relance.
Um Centro de narrativas periféricas, cochichadas pelos seus prédios maltratados pelo tempo; construções; ruínas; travessas; becos; tudo... que se refaz a si próprio todos os dias no seu caótico e compacto espaço democrático. Um Centro de memórias histórias expostas ao ar livre, transmitindo para as novas gerações fatos verídicos de horror, glória, medo, espera,crueldade, saudade, aplausos, conquistas e derrotas...como as encenadas no Teatro José de Alencar, palco de tantos espetáculos grandiosos, que despertava o sonho de seu antigos freqüêntadores: a elite burguesa de séculos atrás. Ou como as do Passeio Público, sobre a existência de em baixo da construção ilustre e bela de seus símbolos, jardins, estátuas, fontes, e calçadão encontra-se uma cela que servia de prisão para mártires além de ponto de espera das esposas e namoradas dos marinheiros e pescadores que partiam para sobrevivência no mar.
Um Centro invisível e profundo que escapa à visão imediata, no qual mais parece um museu sem paredes, constituído de várias salas isoladas e interligadas na formação de seu conteúdo , formas e histórias. Um mar lírico urbano contornado por espaços como o Beco da Poeira, o Cemitério São João Batista, Galeria Pedro Jorge, a monumental construção gótica de torres frontais e encastelados sinos da Catedral Metropolitana de Fortaleza, entre tantos outros.
Um Centro da Cidade que é preciso tempo e atenção para enxergar as suas muitas faces.
