
Era o primeiro dia de outubro, um sábado a tarde, quando fomos visitar a ALA infantil do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS), era meu primeiro ato treino, já como Muriel, minha clown. Ao contrário do que eu mesma pensei que fosse me acontecer, não estava ansiosa, não estava inquieta, nem nada. Estava invadida por uma tristeza (assuntos pessoais). Mesmo assim estava lá.
Magicamente tudo foi ganhando forma... a cada vez que pintava o rosto, vestia a roupa, ajustava o cabelo, e assim lá estava a Muriel. Sem traumas ou assuntos pessoais. E agora sim, as borboletas voando dentro do estômago. Será que as crianças iriam gostar? Era a primeira vez que entraria como palhaça. Bem, nos preparamos; como as visitas são de três palhaços, fiquei com a palhaça Lola e Inhá Amarela.
Incrivelmente naquele dia, todos os funcionários estavam simpáticos com os voluntários. Brincamos com todos e de um modo natural fomos correspondidos. Começamos pelo 4º andar. Foi um pouco difícil entrar no primeiro quarto, pois nosso anfitriã não nos permitia. Até que tiramos nosso elemento mágico da manga! Sim, as bolhas de sabão. Ele ficou encantado e permitiu que eu entrasse devagarinho. Logo minhas companheiras entraram também.
Foi uma visita muito divertida naquele andar, mesmo sendo minha primeira vez, tive um bom entrosamento com o trio. No segundo quarto, havia um garotinho, pequenino, não lembro sua idade, mas estaria entre seus 4 aninhos. Tentei brincar com ele, mas ele se dedicava apenas a televisão e me ignorava, foi então que me posicionei do mesmo jeito que ele: agachei um pouco, coloquei uma das pernas em cima do joelho e fiquei equilibrando o corpo em uma perna só. Mas de repente sem planejar comecei a "bambear" de lá pra cá, de cá pra lá, e o garotinho não pode controlar o riso. Percebendo aquilo continuei propositalmente e do riso, levei o menino a gargalhadas e gargalhadas. Nos demais quarto, tudo ia fluindo perfeitamente. Até as crianças de outros quartos, acompanhantes e enfermeiras nos seguiam em cada leito.
Em um dos momentos estávamos com tantos espectadores que uma médica que estava no andar chegou correndo e apavorada achando que a multidão no quarto era porque alguém estava passando mal (rsrsrs).
Entre as paredes do singelo hospital, realizamos desfiles, concurso de dança, concurso de nariz, briga pra passar primeiro na porta, encontramos um amigo oculto do palhaço Pimenta, o sr. Alho, inventamos histórias, brincamos de esconde-esconde, pega-pega de bolinhas, etc... mas o mais importante: Levamos para casa sacolas lotadas de sons de gargalhadas, e muita, muita felicidade!!
Mas houve um caso em particular. Um menino de 8 anos, o A., já no último quarto do 4º andar. Ele interagiu muito bem com todas nós. E no fim de nossa passagem, pediu que voltássemos no dia seguinte, lembramos que havia ato marcado e argumentamos que outros palhaços iriam voltar, afinal não estávamos escaladas. Mas ele foi taxativo, queria NÓS! Eu então não consegui resistir aquele apelo, e prometi voltar.
No dia seguinte, lá estava eu. Maquiada e vestida, pronta para mais um Ato. Meus companheiros nessa viagem "alucilúdica" eram os palhaços Pimenta e Borboletinha. Nos desbravamos pelo 2º andar. Já no final do ato, Muriel (doce como o mel) permitidamente pelo Pimental, deu uma escapadinha para ver o A., no 4º andar.
Entrei timidamente pelo corredor, estava pouco tensa, não tinha nenhum outro clown para fazer alguma palhaçada pra ele rir, pensei que aquela visita seria um desastre, mas uma promessa feita por um palhaço, é mais que uma promessa, é uma dívida que precisa ser cumprida. Cheguei na porta do quarto dele. E o sorriso que ele abriu ao me ver, pagava todo o fim de semana. Entrei, fiz a higienização habitual, e fui para perto da cadeira que ele estava sentado. Não fiz nada engraçado, apenas conversamos. Não lembro como, iniciamos uma atividade de espelho um com o outro. Estava divertido. Até que ele parou e me fitou seriamente por algum tempo. Eu ainda presa ao espelho, fiz o mesmo. Então ele, com seu dedinho indicador direito, encostou no meu nariz vermelho, sem pensar fiz uma cara de susto, e ele... caiu no riso! E fez de novo, e de novo, e de novo... e cada vez ria mais e mais, era uma gargalhada atrás da outra, livre e gostosa de ouvir.
É uma gargalhado gostosa de lembrar. E é por isso que quase todas as manhãs, em minhas sacrificantes viagens urbanas para o trabalho, lembrar dele, do riso sincero e espontâneo de um gesto tão simples quanto a expressão de um susto, daquela passagem tão rápida que foi, torna meu dia mais colorido e feliz.
