terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Pelos caminhos da Brodway circense

O cruzamento se fez palco; o acostamento o camarim; o semáforo as cortinas. O artista mirím espera ansioso o momento de seu público parar e ele dar asas ao seu espetáculo. Não há figurinos, a não ser o pequeno short sujo, os pés descalços e o rosto de quem tem um dia duro pela frente.
O sinal fica vermelho, é hora de entrar. O braço curto e fino desenvolve os malabares em movimentos simples: as baquetas batem pra cá e pra lá com algumas piruetas. Há outros garotos também por ali, improvisando, alguns até mais ousados, tentando passar o objeto pelas costas e manipular por baixo das pernas. O tempo é contado, tem que fazer o melhor que pode e por sorte escolher o carro certo! Ao fim da apresentação um cordeal cumprimento, segue-se então o ritual diário: ir à janela dos automóveis pedir um trocado pela demostração, o couver não obrigatório e informal. A maioria daqueles que são a sua platéia estão com a janeta fechada, provavelmente nem sequer viram o desempenho do garotinho. Mas estão ali, esperando que o sinal fique verde e aquele pobre indivíduo saia da frente.
Não há aplausos, nem parabéns, nem vaias, nem comentários ou sequer uma crítica...apenas a cruel e fria indiferença!!!
Mas eu vejo seus olhos. Os pedrificados olhos de adulto, embora ali esteja um menino, que não conhece a beleza da infância. Que não pode correr sentindo o vento no rosto, que não pode cair no mar em um dia de sol, que passa suas horas contando os trocados que é tão difícil conseguir. Afinal, a sociedade rica é muito elegante para observar isso! Não aplaude o artista mambembe mirím, mas o ator famoso das peças teatrais clássicas. Não assiste o repentista que leva seu violão às praças e compõe seus versos no exato momento, mas o popstar da mídia fútil. Não admira os contos ou cordéis, mas os imortais do padrão escolhido por alguém que nem sempre conhecemos. Não se interessam pelos bailarinos urbanos em demostrações, mas os dançarinos premiados em algum festival que não assistimos porém lêmos qualquer coisa a respeito. Não prestigiamos nosso maracatu no carnaval, mas as grandes escolas de samba que desfilam longe daqui...
Há tantos artistas nesta minha terra! Nas praças, nas ruas, nos sinais, uns porque possuem o talento, outros porque acham que assim conseguem sobreviver. Apesar da valorização tão precária, em processo cultural. Uma realidade nossa, uma realidade deles. Sei que não dá pra investir em todos aqueles que tentam permanecer nesse meio, contudo acredito que um sorriso, um parabéns, um aplauso, uma atenção ou mesmo um pouquinho do imposto informal, já que o formal/legal passa tão distante.
Enfim, não quero dizer que nossos grandes nomes não merecem tais sucessos, pelo contrário, são tesouros e principalmente inspiradores, todavia, também acredito que outros e anônimos merecem tais reconhecimentos.
PS.: Dedico este pequeno texto à um garotinho de rua, que me inspirou com sua sensível e simples performace com malabares em um sinal da avenida Leste Oeste.

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